Alter do Chão – Fátima
 
“Então não trouxeste a estrela verde?”
“Não!” – Respondeu de rompante com um sorriso manhoso mas inteiramente convincente – “A minha terra é Alter; Constância é… só a terra onde eu moro.”
Já havia claridade suficiente para conseguirmos ver o “uniforme” que cada um trazia. O vermelho e amarelo vivo (sem estrela) das camisolas, já se distinguia claramente. Também já não era necessário manter ligado o pequeno foco que enrolei ao guiador. Porém, não fosse o diabo tece-las, resolvi manter a luz acesa mais algum tempo para que os condutores dos automóveis e dos camiões nos vissem bem e, sobretudo, para que ao passarem por nós se afastassem um pouco mais. Sim, porque a passagem das viaturas provocava uma repetida deslocação de ar que nos causava ligeiros desequilíbrios e oscilações no volante.
A frescura da madrugada percorria-nos o corpo e os perfumes daquele início de verão levavam-nos entre os restolhos dos campos, à direita, e a lista branca do limite do alcatrão da estrada, à esquerda.
 
A ribeira de seda e a Ponte Romana já estavam para trás quando reparámos que o grupo estava novamente separado. Abrandámos, reagrupámos, continuámos, mas não; só na Ponte de Sôr é que acertámos as agulhas: Teríamos que fazer como era habitual nas voltas pelo campo e que se tornara uma das nossas divisas: “ninguém fica para trás”. O lema teria que se aplicar também naquela façanha.
Fotografias da praxe, dois dedos de conversa, uns cafés numa esplanada ainda por montar no cruzamento para a Tramaga, umas graçolas e… “está a andar”. Um, dois, cada um por sua vez, lá seguimos os seis, em fila, a caminho do trilho de terra batida que dos Foros do Arrão nos levaria até Constância. Aí sim, na terra, pedalámos como gostamos: covas, paus, pedras, regos, pó, perdizes, coelhos, estevas (…e aquele fabuloso aroma), ramos, ribeiros, areia, declives seguidos de pequenas elevações, pequenos charcos. Até as cegonhas, patos bravos, e outros pássaros que procuram normalmente zonas de água, nos surgiam… ainda mais graciosos.
Andar no campo é como certos gostos, certos sabores que não são imediatos. Vai-nos aparecendo, vamos percebendo, gradualmente, que o sentir vale o esforço. É como certos desvairos, seguidos de momentos de calma. Não é fácil de explicar. Mais difícil ainda, é fazer entender, nestas e noutras “andanças”, que o essencial é invisível aos olhos.
 
Bom, o gosto por este desporto de convívio e boa disposição é tal que quando passávamos na ponte da Praia do Ribatejo, já se falava que da próxima vez, o caminho de Fátima teria que ser feito por terra, em dois dias, claro. Ficou assente, a jura ficou feita, “lacrada”.
 
Mas o que nos valeu antes de avistarmos Constância e ainda em pleno campo foi uma pausa numa sombra retemperadora, junto de uma pequena bica:
a “Fonte da Ti Ana”. Fontanário singelo, à beira do caminho, com um alusivo painel de azulejos, deu-nos uma água fresquíssima, saborosa onde aproveitámos para tomar uns merecidos tragos e encher os cantis.
 
“Temos que esperar pelo tipo da carrinha. Já falei com ele várias vezes mas não há maneira de dar connosco.” Depois de uma rotunda encostámos para esperar pelo condutor do carro de apoio. Parámos junto à estação dos caminhos-de-ferro de Tancos. Estiquei as pernas, comecei a esboçar uns exercícios para aliviar as dores nas costas e nas pernas, o cansaço e…
“Hé, hé, o que é que se passa? Óóóiçam, óóóó içam…!” Nada. Mal chegou o último do grupo ao local, não é que se puseram logo a andar!? E fizeram-no com uma tal rapidez que se não tivesse partido logo de seguida e acelerado durante uns dois ou três quilómetros, tinha-lhes perdido o rasto…
 
Mais adiante, em Torres Novas voltámos a parar e aí sim, descansamos uma boa meia hora. Não sei, a mim pareceu-me muito tempo. O condutor da carrinha demorou bastante a aparecer. Às tantas, depois de inúmeras indicações através do telemóvel, lá apareceu a viatura do apoio com as águas, sumos e alguns mantimentos que permaneciam embalados desde as cinco da manhã. O calor já apertava a valer, e a Serra de Aire ali mesmo na nossa frente, majestosa, imponente, a vigiar-nos…
Depois do último (e único…) “reforço oficial” entrámos novamente na estrada; não podíamos aguardar mais, o calor era abrasador: começámos a subir.
 
“Finalmente a estrada do Alvorão está a ser arranjada”, afirmei observando as terraplanagens para alargamento da via. “É verdade, até que em fim!”, confirmou o nosso amigo que continuava persistentemente na frente e que acabara, mais uma vez, de se inclinar, e emitir aqueles dois estalidos que o transportavam facilmente para uns cem metros à nossa frente… não havia explicação. Aquele maduro que com o seu amigo do Clube da Estrela Verde se tinham deslocado até Alter para começar connosco aquela jornada, pedalava num “chaço” que dispunha de uns segredos mecânicos que o punham a milhas quando ele entendia. Apercebi-me de algumas malandrices que transformaram a sua velha cannondale numa máquina de velocidade “irritantemente” rápida.
 
A estrada do Alvorão que vai de Torres Novas até ao cruzamento com a estrada de Minde, já em Fátima, foi trepada praticamente em silêncio. A inclinação e a duração da subida emudeceram-nos. Mais uma vez ficou claro, para mim, que os nossos sentidos espirituais abrem-se e maturam melhor no silêncio.
 
No final da subida encontrámos mais dois comparsas do Clube que, conforme combinado, tinham subido a Serra por outro caminho. Na Rotunda
dos Pastorinhos, já não sentia qualquer cansaço… e creio que não era o único. Da última vez que ali passei foi o mesmo… deve ser da altitude.
 
Oito “desajuizados” perfilaram galhardamente no recinto do Santuário para a última foto.
 
“Para a próxima não podemos fazer isto num só dia. Viremos pelo campo e, no primeiro dia, ficam aqui. No outro dia de manhã, faremos a segunda parte e só paramos lá em cima…”, confirmava o nosso anfitrião de Constância à mesa do almoço numa esplanada que considerámos a todos os níveis, verdadeiramente perfeita.
 
António Semedo, 26 de Junho de 2011.
 
Passeio a Fátima